Mentira!

Neste blog e noutros sites do autor poderá prever o futuro do país tal como o presente foi previsto e publicado desde fins da década de 1980. Não é adivinhação, é o que nos outros países há muito se conhece e cá se negam em aceitar. Foi a incredulidade nacional suicidária que deu aos portugueses de hoje o renome de estúpidos e atrasados mentais que defendem os seus algozes sacrificando-se-lhes com as suas famílias. Aconteceu na Grécia, acontece cá e poderá acontecer em qualquer outro país.
Freedom of expression is a fundamental human right. It is one of the most precious of all rights. We should fight to protect it.

Amnesty International


8 de novembro de 2007

Lamento de um professor

À Sra Dra Fátima Campos Ferreira

Os meus respeitosos cumprimentos:

Para vosso conhecimento envio cópia da carta aberta por mim endereçada ao Sr. Presidente da República.

Grato pela atenção

Carta aberta ao Senhor Presidente da República Portuguesa

Ílhavo, 22 de Outubro de 2007

Senhor Presidente da República Portuguesa

Excelência:

Disse V. Excia, no discurso do passado dia 5 de Outubro, que os professores precisavam de ser dignificados e eu ouso acrescentar: "Talvez V. Excia não saiba bem quanto!"

1. Sou professor há mais de trinta e seis anos e no ano passado tive o primeiro contacto com a maior mentira e o maior engano (não lhe chamo fraude porque talvez lhe falte a "má-fé") do ensino em Portugal que dá pelo nome de Cursos de Educação e Formação (CEF).
A mentira começa logo no facto de dois anos nestes cursos darem equivalência ao 9º ano, isto é, aldrabando a Matemática, dois é igual a três!
Um aluno pode faltar dez, vinte, trinta vezes a uma ou a várias disciplinas (mesmo estando na escola) mas, com aulas de remediação, de recuperação ou de compensação (chamem-lhe o que quiserem mas serão sempre sucedâneos de aulas e nunca aulas verdadeiras como as outras) fica sem faltas. Pode ter cinco, dez ou quinze faltas disciplinares, pode inclusive ter sido suspenso que no fim do ano fica sem faltas, fica puro e imaculado como se nascesse nesse momento.
Qual é a mensagem que o aluno retira deste procedimento? Que pode fazer tudo o que lhe apetecer que no final da ano desce sobre ele uma luz divina que o purifica ao contrário do que na vida acontece. Como se vê claramente não pode haver melhor incentivo à irresponsabilidade do que este.

2. Actualmente sinto vergonha de ser professor porque muitos alunos podem este ano encontrar-me na rua e dizerem: "Lá vai o palerma que se fartou de me dizer para me portar bem, que me dizia que podia reprovar por faltas e, afinal, não me aconteceu nada disso. Grande estúpido!"

3. É muito fácil falar de alunos problemáticos a partir dos gabinetes mas a distância que vai deles até às salas de aula é abissal. E é-o porque quando os responsáveis aparecem numa escola levam atrás de si (ou à sua frente, tanto faz) um magote de televisões e de jornais que se atropelam uns aos outros. Deviam era aparecer nas escolas sem avisar, sem jornalistas, trazer o seu carro particular e não terem lugar para estacionar como acontece na minha escola.
Quando aparecem fazem-no com crianças escolhidas e pagas por uma empresa de casting para ficarem bonitos (as crianças e os governantes) na televisão.
Os nossos alunos não são recrutados dessa maneira, não são louros, não têm caracóis no cabelo nem vestem roupa de marca.
Os nossos alunos entram na sala de aula aos berros e aos encontrões, trazem vestidas camisolas interiores cavadas, cheiram a suor e a outras coisas e têm os dentes em mísero estado.
Os nossos alunos estão em estado bruto, estão tal e qual a Natureza os fez, cresceram como silvas que nunca viram uma tesoura de poda. Apesar de terem 15/16 anos parece que nunca conviveram com gente civilizada.
Não fazem distinção entre o recreio e o interior da sala de aula onde entram de boné na cabeça, headphones nos ouvidos continuando as conversas que traziam do recreio.
Os nossos alunos entram na sala, sentam-se na cadeira, abrem as pernas, deixam-se escorregar pela cadeira abaixo e não trazem nem esferográfica nem uma folha de papel onde possam escrever seja o que for.
Quando lhes digo para se sentarem direitos, para se desencostarem da parede, para não se virarem para trás olham-me de soslaio como que a dizer Olha-me este!" e passados alguns segundos estão com as mesmas atitudes.

4. Eu não quero alunos perfeitos. Eu quero apenas alunos normais!!! Alunos que ao serem repreendidos não contradigam o que eu disse e que ao serem novamente chamados à razão não voltem a responder querendo ter a última palavra desafiando a minha autoridade, não me respeitando nem como pessoa mais velha nem como professor. Se nunca tive de aturar faltas de educação aos meus filhos por que é que hei-de aturar faltas de educação aos filhos dos outros? O Estado paga-me para ensinar os alunos, para os educar e ajudar a crescer; não me paga para os aturar! Quem vai conseguir dar aulas a alunos destes até aos 65 anos de idade?
Actualmente só vai para professor quem não está no seu juízo perfeito mas se o estiver, em cinco anos (ou cinco meses bastarão?...) os alunos se encarregarão de lhe arruinar completamente a sanidade mental.
Eu quero alunos que não falem todos ao mesmo tempo sobre coisas que não têm nada a ver com as aulas e quando peço a um que se cale ele não me responda: "Por que é que me mandou calar a mim? Não vê os outros também a falar?"
Eu quero alunos que não façam comentários despropositados de modo a que os outros se riam e respondam ao que eles disseram ateando o rastilho da balbúrdia em que ninguém se entende.
Eu quero alunos que não me obriguem a repetir em todas as aulas «Entram, sentam-se e calam-se!»
Eu quero alunos que não usem artes de ventríloquo para assobiar, cantar, grunhir, mugir, roncar e emitir outros sons. É claro que se eu não quisesse dar mais aula bastaria perguntar quem tinha sido e não sairia mais dali pois ninguém assumiria a responsabilidade.
Eu quero alunos que não desconheçam a existência de expressões como obrigado", "por favor" e "desculpe" e que as usem sempre que o seu emprego se justifique.
Eu quero alunos que ao serem chamados a participar na aula não me olhem com enfado dizendo interiormente "Mas o que é que este quer agora?" e demorem uma eternidade a disponibilizar-se para a tarefa como se me estivessem a fazer um grande favor. Que fique bem claro que os alunos não me fazem favor nenhum em estarem na aula e a portarem-se bem.
Eu quero alunos que não estejam constantemente a receber e a enviar mensagens por telemóvel e a recusarem-se a entregar-mo quando lho peço para terminar esse contacto com o exterior pois esse aluno "não está na sala", está com a cabeça em outros mundos.
Eu sou um trabalhador como outro qualquer e como tal exijo condições de trabalho! Ora, como é que eu posso construir uma frase coerente, como é que eu posso escolher as palavras certas para ser claro e convincente se vejo um aluno a balouçar-se na cadeira, outro virado para trás a rir-se, outro a mexer no telemóvel e outro com a cabeça pousada na mesa a querer dormir?
Quando as aulas são apoiadas por fichas de trabalho gostaria que os alunos, ao sair da sala, não as amarrotassem e deitassem no cesto do lixo mesmo à minha frente ou não as deixassem "esquecidas" em cima da mesa.
Nos últimos cinco minutos de uma aula disse aos alunos que se aproximassem da secretária pois iria fazer uma experiência ilustrando o que tinha sido explicado e eles puseram os bonés na cabeça, as mochilas às costas e encaminharam-se todos em grande conversa para a porta da sala à espera que tocasse. Disse-lhes: "Meus meninos, a aula ainda não acabou! Cheguem-se aqui para verem a experiência!" mas nenhum deles se moveu um milímetro!!!
Como é possível, com alunos destes, criar a empatia necessária para uma aula bem sucedida?
É por estas e por outras que eu NÃO ADMITO A NINGUÉM, RIGOROSAMENTE A NINGUÉM, que ouse pensar, insinuar ou dizer que se os meus alunos não aprendem a culpa é minha!!!

5. No ano passado tive uma turma do 10º ano dum curso profissional em que um aluno, para resolver um problema no quadro, tinha de multiplicar 0,5 por 2 e este virou-se para os colegas a perguntar quem tinha uma máquina de calcular!!! No mesmo dia e na mesma turma outro aluno também pediu uma máquina de calcular para dividir 25,6 por 1.
Estes alunos podem não saber efectuar estas operações sem máquina e talvez tenham esse direito. O que não se pode é dizer que são alunos de uma turma do 10º ano!!!
Com este tipo de qualificação dada aos alunos não me admira que, daqui a dois ou três anos, estejamos à frente de todos os países europeus e do resto do mundo. Talvez estejamos só que os alunos continuarão a ser brutos, burros, ignorantes e desqualificados mas com um diploma!!!

6. São estes os alunos que, ao regressarem à escola, tanto orgulho dão ao Governo. Só que ninguém diz que os Cursos de Educação e Formação são enormes ecopontos (não sejamos hipócritas nem tenhamos medo das palavras) onde desaguam os alunos das mais diversas proveniências e com histórias de vida escolar e familiar de arrepiar desde várias repetências e inúmeras faltas disciplinares até famílias irresponsáveis.
Para os que têm traumas, doenças, carências, limitações e dificuldades várias há médicos, psicólogos, assistentes sociais e outros técnicos, em quantidade suficiente, para os ajudar e complementar o trabalho dos professores?
Há alunos que têm o sublime descaramento de dizer que não andam na escola para estudar mas para "tirar o 9º ano".
Outros há que, simplesmente, não sabem o que andam a fazer na escola…
E, por último, existem os que se passeiam na escola só para boicotar as aulas e para infernizar a vida aos professores. Quem é que consegue ensinar seja o que for a alunos destes? E por que é que eu tenho de os aturar numa sala de aula durante períodos de noventa e de quarenta e cinco minutos por semana durante um ano lectivo? A troco de quê? Da gratidão da sociedade e do reconhecimento e do apreço do Ministério não é, de certeza absoluta!

7. Eu desafio seja quem for do Ministério da Educação (ou de outra área da sociedade) a enfrentar ( o verbo é mesmo esse, "enfrentar", já que de uma luta se trata…), durante uma semana apenas, uma turma destas sozinho, sem jornalistas nem guarda-costas, e cumprir um horário de professor tentando ensinar um assunto qualquer de uma unidade didáctica do programa escolar.
Eu quero saber se ao fim dessa semana esse ilustre voluntário ainda estará com vontade de continuar. E não me digam que isto é demagogia porque demagogia é falar das coisas sem as conhecer e a realidade escolar está numa sala de aula com alunos de carne, osso e odores e não num gabinete onde esses alunos são números num mapa de estatística e eu sei perfeitamente que o que o Governo quer são números para esse mapa, quer os alunos saibam
Estar sentados numa cadeira ou não (saber ler e explicar o que leram seria pedir demasiado pois esse conhecimento justificaria equivalência, não ao 9º ano, as a um bacharelato…).
É preciso que o Ministério diga aos alunos que a aprendizagem exige esforço, que aprender custa, que aprender "dói"! É preciso dizer aos alunos que não basta andar na escola de telemóvel na mão para memorizar conhecimentos, aprender técnicas e adoptar posturas e comportamentos socialmente correctos.

Se V.Excia achar que eu sou pessimista e que estou a perder a sensibilidade por estar em contacto diário com este tipo de jovens pergunte a opinião de outros professores, indague junto das escolas, mande alguém saber. Mas tenha cuidado porque estes cursos são uma mentira…

Permita-me discordar de V. Excia mas dizer que os professores têm de ser dignificados é pouco, muito pouco mesmo…

Atenciosamente

Domingos Freire Cardoso
Professor de Ciências Físico-Químicas
Rua José António Vidal, nº 25 C
3830 - 203 ÍLHAVO
Tel. 234 185 375 / 93 847 11 04
E-mail: dfcardos@gmail.com

NOTA: Como vai o nosso ensino!!! Como serão os cidadãos de amanhã? Como será a produtividade da nossa economia? E a sua competitividade? Como sobreviverão as futuras gerações na economia globalizada?

5 mentiras:

Mentiroso disse...

Esta carta é uma versão dum texto há muito escrito, apenas relatado por outras palavras e que não se desactualizou com os anos, mas se confirmou. Era de esperar. São os filhos dos portugueses que têm tanto orgulho em sê-lo, quando deviam ter vergonha daquilo que realmentesão; são os filhos daquela que no tempo do Mário Soares ficou conhecida como a geração rasca, a geração dos rascas de Abril. Geração essa, educada não sob os princípios do 25 de Abril, mas sob o modo como esses princípios foram deturpados, conspurcados, alterados e transformados por políticos e jornaleiros corruptos, adaptando-os às suas ganâncias. Ou não? Porque tudo lhes foi permitido.

Ainda haverá quem se admire por os cursos superiores não terem equivalência em países civilizados e avançados? Que interessa que para admissão nas universidades se exija uma média mais alta que nos outros países, se nem mesmo com um 20 saberiam o que os outros sabem com 15? Pois se não lhes foi ensinado! Ainda por de mais, pensam que uma aprendizagem puramente técnica dá capacidade profissional a estudantes de profissões que exijam qualidades humanas (como na medicina e na assistência social, por exemplo).

Pior ainda, o caminho que se toma presentemente é a garantia da continuidade na descida de nível, na destruição do ensino, na miséria nacional. É apenas mais um resultado de decisões tomadas por grupos de estudo e comissões formados pelos abortos corruptos e parasitas incapazes dos políticos & amigos. Afinal, não fazem tantas destas mesmas bestas humanas parte da mesma geração rasca, ou não foram eles quem a promoveu? Não se faz o contrário do que se passa nos países que avançam? Onde estão, em Portugal, os estágios profissionais durante os cursos? Que miséria mental e que malvadez!

Para consolidar a destruição do ensino, o governo foi o único governo europeu que reduziu as verbas destinadas ao ensino superior, segundo o Reitor da Universidade de Lisboa. Não serão as intenções claras? É um esforço no avanço tecnológico, palavras com que um bandalho vigarista nos martela as orelhas sem cessar.

Não obstante tudo isto, ainda há quem acredite que os políticos vão ou estão a providenciar para o fim da miséria nacional, do atraso que não faz senão agravar-se de acordo com todas as estatísticas! A que ponto os portugueses são estúpidos de crédulos!

LMB disse...

Pois é, td mto bem mas, se calhar talvez as coisas não sejam assim tão lineares.
Eu tb sou prof apesar de ser um sortudo que lecciona numa escola com putos - secundário - fixes, bem educados etc. etc.
Claro que sei que estou no paraíso, mas tb não existem só infernos.
Eles - os infernos - existem mas, às vezes, tb convém saber lidar com as situações e ter atitudes coerentes para sermos respeitados.
Por outo lado pq se admiram as pessoas que alguns putos sejam tão broncos e selvagens?
Os nossos governantes conseguem ser mto piores. São mentirosos, MAUS, corruptos, vigaristas, aldrabões, etc, etc. e a malta vota neles!!!!!!!!!!!!!!!
Não é natural que todo o aluno -MAL FORMADO - queira ter uma licenciatura à socrates?
Ter uma reforma à mira amaral e demais?
Ser mal educado à sócrates. Algum professor aguentaria ouvir as faltas de educação que o nosso primeiro profere?
Nunca um aluno foi, comigo, tão indelicado como ele foi o com o pobre diabo do santanita na assembleia da república - das bananas? - .
O Santana pode ser uma desgraça como governante mas, pelo menos, não é mal-educado. No meio desta merda toda, já não é mau.
Os alunos rebeldes são uns anjos ao pé da mafia que nos governa. E só me estou a referir ao civismo e à educação.
Anda tudo com medo dos delinquentes carteiristas - que é a profissão que os alunos a que se refere a carta vão ter no futuro - que assaltam os velhinhos reformados e demais cidadãos mas eles, por mto que roubem, nunca conseguirão roubar-nos tanto como quem nos roubam os bancos, as seguradoras, as PTs, os carrapatosos, os belmiros, para já não falar no governo com os nossos impostos.
Concluindo, Esses alunos estão bem integrados, são, no fim de contas, respeitadores dos princípios que norteiam as personalidades, referência, deste nosso país.
Os exemplos vêm de cima.

A. João Soares disse...

Caro Braga,
O cenário que nos traça merece duas observações. Quanto ao texto está muito realista e merece aplauso. Quanto ao cenário descrito, que não é da sua exclusiva responsabilidade mas de todos os portugueses, é de tal maneira negro que nos faz temer pela vida que irão ter as próximas gerações. Como sairão deste pântano que nós lhes legamos em testamento.
Um abraço

Ena Pá! disse...

Não se esqueçam que "geração rasca", foi um rótulo aplicado por um director de um reputado jornal, que apresentava na sua capa as nádegas desnudas de um estudante constestatário no governo da então, ministra da Educação, Manuela Ferreira Leite.
Meus amigos, não há gerações expontâneas!

A. João Soares disse...

Expontâneas poderão não ser, mas o seu aparecimento acaba por ser quase automático, na sequência de sucessivos erros e libertinagens a que nos vamos habituando. Há valores morais que estão a ser desprezados e que estão a fazer falta. Pelo caminho que estamos a seguir, não é previsível a forma como será o relacionamento entre as pessoas num futuro relativamente próximo. A inversão da descida da rampa não será fácil. Mas é imperioso que se inicie quanto antes.
Abraço