Mentira!

Neste blog e noutros sites do autor poderá prever o futuro do país tal como o presente foi previsto e publicado desde fins da década de 1980. Não é adivinhação, é o que nos outros países há muito se conhece e cá se negam em aceitar. Foi a incredulidade nacional suicidária que deu aos portugueses de hoje o renome de estúpidos e atrasados mentais que defendem os seus algozes sacrificando-se-lhes com as suas famílias. Aconteceu na Grécia, acontece cá e poderá acontecer em qualquer outro país.
Freedom of expression is a fundamental human right. It is one of the most precious of all rights. We should fight to protect it.

Amnesty International


30 de junho de 2010

Miséria Humana

O texto adiante reproduzido foi escrito pelo conhecido professor, ensaísta e escritor Eduardo Prado Coelho e publicado no jornal Público há pouco mais de três anos.

Dele sobressaem dois pontos: (1) nada mudou até hoje, não obstante os portugueses em geral estarem convencidos que se têm civilizado, aprendido a viver e serem dignos de apreço e consideração; (2) demonstra o atraso mental dum povo que pretende exigir que os seus políticos sejam honestos, quando cada um se considera isento desse cumprimento por excepção. Nada pode revelar melhor a veracidade do provérbio «cada povo tem o governo que merece» nem melhor justificar que a miséria financeira ou o sucesso sem roubo estão directamente dependentes da capacidade mental.

Em Portugal ainda há quem pense que «cada um por si» em lugar de «todos em conjunto» ou «um por todos, todos por um» são a garantia do sucesso e o melhor modo de viver. Ainda se está bem longe de se saber viver em civismo democrático. Cada um pensa ser, por direito democrático, uma excepção particular às regras de democracia e delas especialmente isento. Como esperar qualquer melhoria dependente destes princípios, quando se vive e se faz tudo o que é possível para evitar que tal possa vir a acontecer?! Enquanto não se compreender como se deve viver em sociedade nenhuma melhoria há a esperar e todas as patranhas dos políticos não passarão disso mesmo: patranhas para estultos e atrasados mentais.

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates. O problema está em nós. Nós como povo.

Nós como matéria-prima de um país. Porque pertenço a um país onde a esperteza é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais o que o euro. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais. Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal e se tira um só jornal, deixando-se os demais onde estão.

Pertenço ao país onde as empresas privadas são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clipes e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos... e para eles mesmos.

Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.

Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito. Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos. Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros. Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é "muito chato ter que ler") e não há consciência nem memória política, histórica nem económica. Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar a alguns.

Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser "compradas", sem se fazer qualquer exame. Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para lhe não dar o lugar. Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão. Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes. Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas. Não. Não. Não. Já basta.

Como "matéria-prima" de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que nosso país precisa. Esses defeitos, essa "chico-espertertice portuguesa" congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente ruim, porque todos eles são portugueses como nós, eleitos por nós. Nascidos aqui, não em outra parte.

Fico triste. Porque, ainda que Sócrates fosse embora hoje mesmo, o próximo que o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma matéria-prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada... Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, e nem serve Sócrates, nem servirá o que vier. Qual é a alternativa?

Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror? Aqui falta outra coisa. E enquanto essa "outra coisa" não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados… igualmente abusados!

É muito bom ser português. Mas quando essa Portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda. Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um Messias. Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer. Está muito claro... Somos nós que temos que mudar. Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a nos acontecer: desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e francamente tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, não para castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim, exigir-lhe) que melhore seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido. Sim, decidi procurar o responsável e estou seguro que o encontrarei quando me olhar no espelho. Aí está. Não preciso procurá-lo em outro lado. E você, o que pensa? Medite!

Eduardo Prado Coelho


- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

E então? Algum pobre pasmado ou desmiolado acreditará ainda que tudo há-de mudar nos outros sem que ele mesmo mude? Estupidez? Não. Cúmulo da estupidez? Também não, ou não só, vivem na idade da pedra, mas com muita auto-estima. Ao ouvi-los, até os juízes assim pensam. As crianças, como produto natural dos pais, são por eles transformadas em pequenos monstros, futuros grandes monstros quando adultas. Reflicta-se o que virá a ser a filha da autora da mensagem reproduzida abaixo, impedida de estudar e aprender.


Os circos armados no parlamento com as comissões de ética – que antes de terem início já se sabe que não podem chegar a qualquer conclusão à parte o roubo para as algibeiras dos que as compõem – são outras tantas evidências do estado do país, ou não fosse essa a única razão para que elas continuem a exercer-se.

Civismo, cultura, consciência, honestidade, valores fundamentados (não heróis rascas) e bons princípios são as palavras-chave que serviram de modelo às democracias-modelo mais avançadas que tanto se enaltecem. No entanto, só de estrumeiras como a Espanha os labregos e impostores jornaleiros nos querem impingir os piores exemplos. Se Portugal se tivesse colado a países avançados e lhes tivesse seguido as pegadas que os levaram ao sucesso, de certo não seria arrastado no mesmo esgoto que a Espanha.

A corrupção política existe em todo o mundo, mas como em Portugal é um exagero só possível pela ignorância popular que a permite e como anormais pensa que não e assim muito errado, que pode também tirar proveito (que loucura!).

O avanço dos países civilizados europeus, porém, deve-se ao contrário. Estes problemas e outros idênticos foram-nos criados pela contínua e persistente desinformação da jornaleirada imunda que teima em esconder-nos a realidade, simultaneamente criando nos atrasados um orgulho tão desmedido como injustificável por se basear em valores rascas e incivilizados. Ficou assim a população impedida de lutar contra a corrupção política ficando entregue ao seu bel prazer e por ignorância impedida de melhorar a sua vida: caiu na desgraça que se conhece.

Vejam-se os dois pontos abaixo. Estamos perto de eleições presidenciais. Como candidatos, temos um assassino e um aldrabão, cada um defendendo a sua máfia, e ainda um homem que provou ser honesto e possuir uma vontade de ferro, indispensável à sua vida profissional (para quem tenha conhecimentos para compreender como e porquê).

Por um lado, os canalhas jornaleiros não param de bojardar sobre os dois trastes monstruosos, mas raramente referem o único digno dos três. Houve mesmo o indivíduo que mais nos roubou no seu tempo, o Mário Soares, que disse – por outras palavras suas – que o honesto não servia para presidente por estar afastado da política. Isto é importante, mas precisamente no sentido contrário com que o Soares pretendeu ridicularizá-lo.

Por outro lado, a estupidez nacional vai de novo patentear-se nessas próximas eleições precisamente rejeitando o único honesto e elegendo um dos monstros abjectos. Absolutamente de acordo com as palavras do E. P. Coelho nas suas duas acepções.

Tendo em consideração o significado das frases do texto transcrito, também não é difícil de concluirmos que tantos blogs que se limitam a críticas políticas sem comparar o comportamento dos políticos ao do povo (como é de uso nos textos do presente autor) são geralmente críticas movidas apenas por fanatismo e sectarismo políticos cegos ou de má fé, como é o caso do blog do José Maria Martins, que mais explicito seria difícil.


Nota: Este artigo do Eduardo Prado Coelho foi já publicado, juntamente com outros de António Barreto e de Paulo M. A. Martins no Blog do Leão Pelado, cerca de dois meses antes do seu falecimento, em 25 Agosto de 2007. O seu artigo, porém, parece estar hoje mais vivo e actual do que quando foi escrito, bem comprovado por todos os acontecimentos que se atropelam sem interrupção e que nos gritam as suas palavras.